Em defesa da mídia física

Estamos definitivamente na era do streaming.

O ato de possuir um produto cultural, seja um filme, um CD de música ou mesmo um livro parece estar relegado ao passado.

Netflix, Spotify e serviços similares lutam pelo domínio na distribuição de conteúdo e empresas de mídia tradicionais estão vendo sua supremacia (quando não sua sobrevivência) ameaçada.

Para termos uma ideia da mudança nos hábitos de consumo, 2016 não apenas foi o pior ano de vendas de CDs da história como também foi o pior ano de venda de música digitalmente (link).

As vendas estão tão baixas, que até mesmo discos de vinil voltaram a ser relevantes (link).

Mas essa mudança é positiva em todos os aspectos? Eu sou do tempo que ter uma coleção de filmes e CDs musicais não só era motivo de orgulho como uma expressão de sua personalidade.

Hoje isso não acontece mais. O que você vai fazer quando chega na casa de alguém e quer puxar conversa sobre cultura? Você pede o histórico de uso do Netflix?

Mas fora a quebra dos protocolos sociais, os consumidores de conteúdo estão no melhor dos mundos com todos os filmes e músicas do mundo à disposição ao custo de uma módica mensalidade, certo?

Bom, mais ou menos.

Existem alguns problemas a meu ver em não sermos mais os proprietários de nossos produtos culturais favoritos, desde a mais simples conveniência de uso até a possibilidade de mecanismos de censura. Acredito que quando abandonamos a posse das mídias que armazenam os nossos filmes, estamos abrindo mão de mais coisas do que espaço na estante. Vamos avaliar esses itens:

Disponibilidade e Conveniência

Se você está com seu disquinho em casa e seu player e televisão estão funcionando, nada te impede de assistir seu filme ou seriado favorito. Se você depende de um serviço de streaming outras questões podem impedir que isso aconteça, como as complexas (e por muitas vezes hostis) negociações entre os produtores de conteúdo e os serviços de streaming.

Fiz um cruzamento entre os 20 filmes melhor avaliados no IMDb e os filmes disponíveis nos catálogos do Netflix Brasil e USA para termos uma visão de como pode ser complexo gerenciar esses relacionamentos:

IMDb Top 20 (Mobile)
Fonte: IMDb – Consulta Feita em 27/03/2017.

Não deixa de ser surpreendente que o catálogo brasileiro do Netflix tenha muito mais filmes da relação do que o americano, mas em todo caso quem tem por objetivo fazer uma maratona dos melhores filmes terá que se conter com no máximo 65% da relação.

Também fica claro que o licenciamento e questões de direitos autorias em escala global serão uma fonte eterna de dor de cabeça para serviços de streaming. O produto X pode licenciado por empresas diferentes em países diferentes, além de existirem legislações específicas para cada país.

Claro que essa questão muda mês a mês, mas esses problemas ajudam a entender por que Netflix, Amazon e Hulu investem tanto em produção de conteúdo próprio.

Obs.: Cito o Netflix aqui apenas como exemplo, e por que é o serviço que está mais estabelecido no Brasil.

A sua preferência é a preferência do seu provedor?

Além das negociações contratuais, o provedor tem que lidar com a questão fundamental: “O que publicar? ”. A resposta mais simples seria “o que agradar à maioria”.

A maior parte dos títulos do Netflix foca seus títulos no período de 2000 em diante (89% do total de filmes e 93% do total de séries) em especial de 2010 em diante (68% do total de filmes e 73% do total de séries).

Filmes Netflix (Mobile)
Fonte: Filmes Netflix

Se você é fã de filmes dos anos 50 e 60, está sem sorte.

É claro que isso é uma questão de gosto pessoal. Para muita gente não ter acesso a filmes dos anos 1970 e 1980 não faz diferença, mas nós estabelecemos vínculos emocionais com produtos culturais que consumimos. Um filme que marcou algum momento de sua vida não estará disponível no futuro se o foco dos serviços sempre for em obras contemporâneas.

Isso pode também levar ao desaparecimento de muitas obras que não se encaixem no perfil altamente popular / contemporâneo imediatista. Hoje já é difícil encontrar alguns filmes que não foram publicados em Blu-ray nem licenciados por algum dos principais serviços. Um exemplo é o filme The Contender de 2000, que foi indicado ao Oscar e tem elenco de estrelas de Hollywood, mas não consegue mais ser encontrado mesmo nos EUA a não ser em velhas cópias em DVD.

A possibilidade de Censura

O aspecto mais espinhoso de colocarmos toda a gestão dos produtos culturais em um pequeno grupo de empresas é que fica muito simples suprimir obras que sejam consideradas subversivas ou mesmo heréticas por algum grupo.

Por exemplo, durante o auge do socialismo na Romênia, filmes de ação americanos eram proibidos e assistidos em fitas VHS piratas (assista o documentário “Chuck Norris vs. Communism” – disponível no Netflix…), o que dava aos jovens uma visão de um mundo que o governo lhes proibia. Hoje a proibição seria muito mais fácil de ser implementada se tudo o que tivéssemos fossem contas de serviços de streaming.

Não acredito que isso seja feito hoje, ou que as empresas que prestam esses serviços tenham alguma agenda secreta, mas não quer dizer que não possa ser feito.

Infelizmente, não acho que o comportamento das pessoas vá mudar. A simplicidade de uso e baixo custo de um serviço de streaming é muito grande e a tecnologia evolui, mesmo que nem sempre eu aprecie o caminho para o qual ela está evoluindo.

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